Quinta-feira, Maio 21, 2009


Sobre a filosofia não ser feminina, encontrei este sugestivo texto do livro As filósofas de Marina Bruzzese (tradução livre minha).

"A Filo-sofia, termo adotado por Platão no século IV a.C., para definir a busca do conhecimento fundamental remete a uma Sofia ou sabedoria mais antiga. A sabedoria se apresentava, desde suas remotas origens na alvorada do mundo grego nos séculos VIII e VII a.C. como forma de conhecimento novo ainda ligado à religião e ao mito. As formas de relação entre religião e sabedoria, a primeira eminentemente coletiva e a segunda ligada à experiências e exigências individualistas, eram numerosas: a poesia era uma delas, Homero e Hesíodo, tanto quanto Parmênides e Empédocles foram sábios e poetas. A mesma especulação filosófica, ao menos até a idade dos sofistas ou de Sócrates, estava permeada de elementos mitológicos e poéticos. A separação do pensamento filosófico puro do abanico pluralista da sabedoria foi, pois, lenta e gradual.
No século VI, o que ainda tinham em comum Sofia e Filosofia, sabedoria e paixão pela sabedoria, era o caráter prático de ambas: o interesse pela vida dos homens, pela disciplina de seu comportamento e de sua conduta moral, a tendência até uma forma de vida superior que unisse o homem com as forças agentes da natureza, na Physis. Teoria e prática estavam estreitamente ligadas na conduta do sábio.
O caráter oral, metafórico e ritual concedia um poder de salvação aos conhecimentos da antiga Grécia e os situava em uma complexa relação de continuidade e ruptura com os lugares e os papéis do mito e da religião: a Sofia era, no fundo, uma religião conceitualizada, a aparição gradual do pensamento primitivo, do pensamento dos oráculos e dos sábios, da peculiar forma racional de conhecimento humano.
A Sofia antiga era, portanto, uma arte para sábios, para iluminados, para profetas e sacerdotes. O acesso à mesma só era permitido sob certas condições privilegiadas: embriaguez, loucura, asceses chamânicas e vidência.
Durante milênios a filosofia conservou, em distintas formas, as prerrogativas de um saber excepcional, reservadas as pessoas que levavam uma conduta existencial peculiar, que se situava para além da normalidade. Esta era a religião antiga, e a Sofia, primeiro, e a filosofia depois, herdaram este legado, transformando-o ao longo da história. Podemos pensar que, na gestão desta antiga sabedoria, as mulheres desempenharam um papel particular, um papel de que ficam vestígios nos mitos.
Uma vez separada da Sofia, a filosofia adquire gradualmente as características de um saber lógico e masculino e exclui as mulheres do conhecimento, confinando-as num papel exclusivamente religioso. A Sofia, como legado de uma cultura materna, perde sua função".

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