
Foi ótimo o debate com o Professor Baggio. Trata-se de um pensador católico sim, mas que não usa argumentos religiosos para fundar teses filosóficas. O auditório estava lotado e o diálogo foi muito rico. Procurei mostrar o que a palavra "fraternidade" sugere a alguém como eu: a campanha da fraternidade, da Igreja Católica, o lema da Revolução Francesa e dois filmes famosos, produzidos na década de 1980 e início da década de 1990, A fraternidade é vermelha e Filadélfia. Examinei, em primeiro lugar, estes dois filmes que, exploram, sob o ponto de vista estético, vários aspectos da fraternidade, sobretudo a amizade, a solidariedade, a ajuda mútua e o amor por todo o gênero humano. Evoquei estes dois filmes não só para lembrar o que significa a fraternidade, mas também, no caso do segundo deles, para recordar que fraternidade nada mais é do que o termo latino que traduz o grego “philadelphía”, palavra que parece ter sido usada, pela primeira vez, em Atenas, no século V, por uma grande mulher, Aspásia, conhecida por sua erudição e cultura, mas também, por isso mesmo, perseguida por uma sociedade fortemente patriarcal. Aspásia, que não era ateniense de origem, e que por esta razão não podia casar-se com Péricles, com quem vivia, foi vítima de uma das leis elaboradas por seu companheiro, que atribuía o estatuto de estrangeiro aos filhos oriundos de pais não atenienses. Ora, o ideal da “philadelphía” é, em primeiro lugar, a recusa por parte desta mulher admirável, de admitir a condição de estranho outorgada a seu filho. Em seguida, a defesa que ela faz da democracia plebéia grega contra os ataques ideológicos oligárquicos.
O cristianismo, por sua vez, me remete a uma outra idéia de fraternidade que também é revolucionária: o ideal de irmandade, de comunidade e de convivência pacífica, amorosa e solidária propugnado pelo Novo Testamento. A grande “novidade” da religião cristã é precisamente esta utopia de transformação das relações sociais contida na idéia de fraternidade. O cristianismo, podemos dizer, transgrediu e ampliou o significado tradicional do termo “irmão” (frater; adelphós), estendendo-o, de forma inédita, ao conjunto dos seres humanos.
Enfim, a Revolução Francesa me sugere outro sentido da fraternidade, mais político, que busca
igualar, como irmãos, no seio de uma nova sociedade civil, laica e republicana, aqueles que outrora foram submetidos à servidão pelo Antigo Regime. Na Revolução Francesa, a fraternidade se afirmou num processo de luta não só contra os privilégios instituídos pela monarquia despótica, mas também contra as formas aristocratizantes de republicanismo. Para Robespierre, o princípio da fraternidade representa, antes de tudo, o combate à distinção entre “cidadãos ativos” e “cidadãos passivos”, e a defesa do ideal de emancipação das classes populares.
Contudo, não se pode olvidar o fato de que a mesma idéia também serviu e continua a servir como elemento justificador de solidariedades bem mais conservadoras, tais como o nacionalismo ou o patriotismo, por exemplo, que se constroem exatamente no sentido de uma oposição entre “nós” e os “outros”, entre “amigos” e “inimigos”, entre “nacionais” e “estrangeiros”. Dessa forma, a fraternidade possui ao menos uma duplicidade de sentidos, sendo um revolucionário e o outro profundamente conservador, não democrático (ligado a seitas ou sociedades secretas).
A principal indagação proposta pelo Professor Baggio, para a qual eu não tenho respostas, é saber se a fraternidade poderia ultrapassar sua particularidade religiosa e se converter numa virtude cívica universal, destituída de uma referência ao sobrenatural? Não se trata de uma questão meramente semântica. A pergunta que acabamos de formular diz respeito à própria pertinência de ressurgimento e recuperação política da idéia de fraternidade. De fato, devemos introduzir novamente a fraternidade no rol das categorias políticas? Ou nos termos literais do professor Baggio: a fraternidade pode se tornar a terceira categoria política, ao lado da liberdade e da igualdade, para completar e dar novos significados aos fundamentos e perspectivas da democracia?
Para Baggio, a resposta é positiva. Para ele, o fato de a fraternidade ser um princípio intrinsecamente atrelado ao cristianismo, não significa que ele deva ser abandonado ou esquecido como categoria política. Afinal, inegavelmente, o ideal de fraternidade teve um papel central no Iluminismo europeu e funcionou como elemento estimulador de vários episódios revolucionários na América do Norte e América Latina, como testemunha, muito particularmente, a Revolução do Haiti, analisada, de forma pormenorizada pelo professor italiano no segundo ensaio que integra o livro de sua autoria, O Princípio Esquecido. No mais, ainda que pensada em termos parciais, principalmente como solidariedade, a fraternidade ensejou o reconhecimento dos direitos sociais, os quais, por sua vez, deram origem às políticas de bem-estar social. Por fim, a fraternidade também pode desempenhar um papel fundamental no plano das relações transnacionais.
Isto posto, muitas questões podem ser formuladas ao professor Baggio: a fraternidade seria um princípio simplesmente esquecido ou tratar-se-ia de um princípio impossível de ser resgatado? Os motivos pelos quais, a partir da derrocada da Revolução de 1848, a teoria e a práxis políticas abandonaram o conceito de fraternidade não seriam ainda válidos? Como falar de fraternidade em um momento no qual o nacionalismo é reafirmado com grande intensidade, a xenofobia retorna nos países do norte, e os conflitos internacionais retornam com intensidade?
E certamente a pergunta mais difícil: se somos todos irmãos é porque temos um pai em comum. Logo, como fundar esta idéia fora de um quadro religioso?















